Uma experiência brasileira que utiliza o Sound Healing como prática complementar de humanização em cuidados paliativos.
Nem todo cuidado acontece por meio de um procedimento. Alguns começam quando alguém encontra, pela primeira vez em muito tempo, um espaço para simplesmente existir.
Nos cuidados paliativos, aprendemos diariamente que aliviar o sofrimento vai muito além do controle de sintomas. Ainda assim, permanece uma pergunta que me acompanha ao longo da minha trajetória com o cuidado por meio do som:
Como oferecer presença quando nem tudo pode ser curado?
Ela deu origem ao O Som do Cuidar – Programa de cuidado, humanização e regulação emocional por meio do som, desenvolvido como uma prática complementar para pessoas com doenças que ameaçam a continuidade da vida, seus familiares e profissionais de saúde. Inspirado na visão de cuidado inaugurada por Cicely Saunders e alinhado às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020), o programa compreende que, mesmo quando a cura já não é possível, o cuidado continua sendo uma experiência profundamente humana.
O programa parte de uma compreensão essencial dos cuidados paliativos: o cuidado não se dirige apenas à pessoa doente, mas também àqueles que caminham ao seu lado — especialmente seus familiares e sua rede de suporte (Arantes, 2016, p. 53). Por isso, suas experiências podem ser desenvolvidas em diferentes contextos assistenciais, adaptando-se às necessidades de pacientes, familiares e equipes de saúde.
Mais do que propor uma intervenção, o programa nasceu do desejo de criar condições para algo essencial, mas nem sempre disponível no cotidiano dos serviços de saúde: uma pausa. Um espaço de presença. Um tempo em que o cuidado também possa acontecer pela experiência.
O Som como Tecnologia leve de cuidado
Embora a literatura científica sobre Sound Healing ainda esteja em desenvolvimento, cresce o interesse científico pelas contribuições das experiências sonoras para a promoção do bem-estar em diferentes contextos de saúde.
Um estudo observacional com meditação sonora utilizando taças tibetanas identificou reduções significativas de tensão, ansiedade, fadiga e estados de humor negativos após uma única sessão (Goldsby et al., 2017). Mais recentemente, um estudo publicado no European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education (2023) comparou o tratamento sonoro com taças tibetanas ao relaxamento muscular progressivo e a um grupo controle. Os resultados apontaram reduções mais expressivas da ansiedade autorrelatada, além de alterações fisiológicas compatíveis com uma resposta de relaxamento, como o aumento de indicadores associados à ativação do sistema nervoso parassimpático.
Como acontece com tantas práticas integrativas e complementares em saúde, as evidências continuam em construção. Os resultados disponíveis, entretanto, apontam para um campo de investigação em expansão, que merece ser aprofundado com crescente rigor científico.
No Brasil, o médico sanitarista e pesquisador Emerson Elias Merhy, em diálogo com o psicólogo sanitarista e também pesquisador em Saúde Coletiva Túlio Batista Franco, propôs o conceito de tecnologias leves para caracterizar a dimensão relacional do trabalho em saúde, fundamental para a produção do cuidado: as relações, o acolhimento, o vínculo e a responsabilização (Merhy; Franco, 2003).
É nessa dimensão relacional que reconheço algumas das possibilidades do cuidado sonoro: a escuta, a presença, o acolhimento e a criação de um espaço em que cada pessoa possa se perceber e ser cuidada em sua singularidade.
Talvez seja justamente nesse espaço — entre aquilo que a medicina pode tratar e aquilo que continua pedindo presença — que o cuidado sonoro revele uma de suas maiores contribuições.
Nessa perspectiva, o cuidado sonoro pode ser compreendido como uma prática que dialoga com o campo das tecnologias leves: uma experiência que amplia as possibilidades de encontro, escuta e acolhimento sem perder de vista aquilo que constitui a essência dos cuidados paliativos — a pessoa em sua integralidade.
Não como um recurso destinado a substituir abordagens clínicas já consolidadas, nem como resposta para todos os sofrimentos. Mas como uma possibilidade de criar condições para que o corpo desacelere, a atenção se reorganize e cada pessoa encontre, ainda que por alguns minutos, um espaço de respiro em meio à intensidade do adoecimento e do cuidar.
Uma pausa para quem cuida
Em maio de 2026, o Hospital Bom Jesus dos Passos, em Laguna, Santa Catarina (Brasil), recebeu o programa O Som do Cuidar. A instituição integra os cuidados paliativos entre os serviços oferecidos à comunidade.
Direcionada aos profissionais de saúde da instituição, a experiência foi realizada em quatro encontros, reunindo 28 colaboradoras e colaboradores que participaram voluntariamente das vivências sonoras. A proposta era oferecer uma pausa no ritmo intenso do cotidiano hospitalar — um momento para desacelerar, respirar e voltar a dirigir o cuidado também para si.
As sessões aconteceram em círculo com todas as pessoas sentadas. No início de cada encontro, as pessoas foram convidadas a colocar uma gota de óleo essencial nas mãos, realizar algumas respirações conscientes e estabelecer, silenciosamente, uma intenção para aquele momento. Em seguida, o ambiente foi preenchido pelas vibrações de taças tibetanas, carrilhões, kalimba e outros instrumentos ativados de forma terapêutica, conduzindo o grupo por uma experiência de escuta, presença e relaxamento.
O som percorreu caminhos diferentes em cada pessoa.
Algumas relaxaram profundamente. Outras relataram surpresa ao perceber o quanto seus corpos permaneciam tensionados antes da experiência. Houve quem encontrasse, naquele espaço de silêncio, contato com emoções que há muito permaneciam suspensas. Uma participante compartilhou, emocionada, que durante a vivência conseguiu acessar e iniciar a elaboração do luto pela morte de seu pai — um processo que, até então, ainda não havia encontrado espaço para acontecer.
Não se tratava de produzir um estado específico nem de buscar experiências extraordinárias. Tratava-se de oferecer condições para que cada pessoa pudesse encontrar, em si mesma, aquilo que, naquele momento, precisava ser cuidado.
Na avaliação realizada após as vivências, a presidente do Hospital Bom Jesus dos Passos, Dra. Tatiana Mansur Blosfeld, destacou um dos aspectos que considerou mais relevantes para a realidade da instituição:
“A possibilidade de proporcionar aos colaboradores do Hospital um momento de pausa, acolhimento e conexão consigo mesmos, favorecendo o bem-estar emocional e fortalecendo o cuidado de quem cuida.”
Logo após as sessões, a Dra. Tatiana compartilhou que profissionais comentavam espontaneamente pelos corredores sobre a experiência e manifestavam o desejo de que novos encontros fossem realizados. E resumiu, de maneira sensível, aquilo que permaneceu no ambiente após as vivências:
“Foi lindo o que iniciaste aqui e ficou reverberando no ar de muitas maneiras. Fiquei muito feliz com a tua presença e tudo o que trouxeste nessas notas e vibrações. Temos muito a realizar juntas.”
Talvez essa seja uma das características mais singulares do cuidado sonoro.
Nem tudo o que acontece durante uma experiência sonora pode ser descrito por indicadores fisiológicos ou escalas de avaliação. Muitas vezes, permanecem presentes na maneira como as pessoas voltam a respirar, a escutar umas às outras e a habitar o próprio trabalho.
É justamente nesse sentido que o cuidado sonoro dialoga com os princípios da humanização: não por acrescentar procedimentos ao cotidiano dos serviços de saúde, mas por ampliar a qualidade da presença nos encontros que já acontecem.
Humanizar é transformar a qualidade do encontro
Nos cuidados paliativos, fala-se frequentemente sobre dignidade, autonomia, alívio do sofrimento e qualidade de vida. São princípios que orientam práticas, decisões e relações de cuidado. No entanto, existe uma dimensão menos tangível — e, justamente por isso, mais difícil de mensurar — que atravessa todas elas: a qualidade da presença.
Estar presente não significa apenas ocupar o mesmo espaço que outra pessoa. Significa oferecer uma escuta que acolhe, um silêncio que não precisa ser preenchido e um tempo que respeita o ritmo de quem vive o adoecimento, de quem acompanha esse processo e de quem cuida diariamente.
Talvez seja nesse território, onde nem tudo pode ser resolvido, que o cuidado sonoro encontre sua maior contribuição.
Ao favorecer estados de relaxamento, ampliar a percepção do próprio corpo e criar condições para experiências de escuta e presença, o som não procura substituir intervenções clínicas nem responder a todas as formas de sofrimento. Ele oferece um espaço no qual o cuidado pode ser vivido de outra maneira.
Nessa perspectiva, o cuidado sonoro pode ser compreendido como uma tecnologia leve de cuidado. Sua potência não reside apenas nos instrumentos utilizados ou nas vibrações que se propagam, mas na qualidade das relações que ajuda a sustentar: relações mais presentes, mais sensíveis e mais humanas.
Em um tempo em que os sistemas de saúde são desafiados a cuidar cada vez mais da complexidade humana, talvez também seja tempo de ampliar nosso repertório de cuidado. Não para substituir aquilo que já sabemos fazer, mas para somar novas possibilidades de presença.
Porque humanizar não é acrescentar procedimentos. É transformar a qualidade do encontro. E o cuidado sonoro não procura mudar a história da doença. Procura transformar, ainda que por alguns instantes, a experiência de quem a atravessa.
Para saber mais
Sound Healing e seus possíveis efeitos
- Goldsby, T. L., Goldsby, M. E., McWalters, M., & Mills, P. J. (2017). Effects of Singing Bowl Sound Meditation on Mood, Tension, and Well-being: An Observational Study.
- European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education (2023). Estudo que comparou o tratamento sonoro com taças tibetanas ao relaxamento muscular progressivo na redução da ansiedade.
Humanização e cuidado
- ARANTES, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. São Paulo: Casa da Palavra, 2016.
- MERHY, Emerson Elias; FRANCO, Túlio Batista. Por uma composição técnica do trabalho centrada no campo relacional e nas tecnologias leves. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316–323, 2003. [Acesso ao artigo em PDF]
- World Health Organization (2020). Palliative Care.
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Thaís Oliveira Chita é sound healer e gestora de projetos, com formação em Jornalismo e Sound Healing. Sua formação em Sound Healing teve início na Soundfulness Education. É a idealizadora de O Som do Cuidar – The Sound of Care, um programa de cuidado, humanização e regulação emocional por meio do som, que integra experiências sonoras às práticas de cuidado voltadas a profissionais de saúde, pacientes e familiares em hospitais e outros contextos de atenção à saúde.
Seu trabalho reúne conhecimentos em Sound Healing, regulação do sistema nervoso e humanização do cuidado, desenvolvendo projetos que ampliam espaços de presença, escuta e bem-estar em instituições de saúde.
HUM Sound Healing
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