100 dias de isolamento: a experiência de um hospital brasileiro de Cuidados Paliativos para prevenir a disseminação da COVID-19

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Entre 25 de março e 2 de julho de 2020, o Hospital Premier na cidade de São Paulo -Brasil, isolou-se para evitar a disseminação da COVID-19 entre seus pacientes, familiares e funcionários. A chamada Quarentena Solidária foi implantada após declaração da OMS de estado de emergência mundial e pandemia pelo novo coronavírus.

A experiência de países como China, Itália e Espanha nos alertou para o desafio e a responsabilidade de desenvolver medidas preventivas eficazes. As medidas de isolamento social foram sendo tomadas gradativamente. As visitas de familiares foram suspensas, bem como as visitas de voluntários religiosos que semanalmente confortavam pacientes daquelas crenças. Os músicos não enchiam mais os corredores do hospital com sua arte. Alunos de graduação e pós-graduação de diversas instituições de ensino parceiras interromperam suas atividades educativas. Eventos regulares para promover a qualidade de vida dos pacientes e acompanhantes deram lugar a salas vazias. Os idosos da vizinhança interromperam suas atividades de prevenção à saúde dentro das instalações do hospital.

Essa introdução provém uma ideia da atmosfera usual do Hospital Premier. Fundado em 2004 e norteado pelos princípios dos Cuidados Paliativos, o Hospital Premier é uma instituição privada com capacidade para 70 leitos, de nível secundário, especializada no cuidado a portadores de doenças crônicas com alta dependência e seus familiares. Nossa meta é cuidar dos pacientes e de toda a equipe, valorizando a beleza e a complexidade individual. Por meio da prática do cuidado compassivo, incentivamos as pessoas a se olharem nos olhos e a se reconhecerem diante das dificuldades psicossociais e estruturais que nossa sociedade impõe. Dessa forma, os valores que regem a nossa convivência são sinalizados para a comunidade, e existe um exercício contínuo para desenvolver este olhar atento.

Estávamos cientes de que o cenário pandêmico poderia ser ainda mais agravante devido às desigualdades sociais e ao acesso limitado aos serviços de saúde no Brasil. Ao considerar o alto risco de complicações dos pacientes em Cuidados Paliativos; funcionários que vivem em condições de vulnerabilidade e transporte público municipal com aglomeração e risco aumentado de contaminação no trajeto de ida e volta para o trabalho; o Hospital Premier  optou pela estratégia de auto-isolamento / Quarentena Solidária.

Oferecemos aos funcionários a possibilidade voluntária de permanecer permanentemente nas instalações do hospital a partir de 25 de março. Em torno de 40% dos profissionais concordaram em participar da Quarentena Solidária, através da assinatura de termo de adesão voluntária e, com ciência de que poderiam sair a qualquer momento. O hospital disponibilizou equipamentos de proteção individual (EPIs), camas, roupas de cama e banho, roupas de trabalho, lavagem de roupas, produtos de higiene pessoal e alimentos para todos os funcionários que aceitaram voluntariamente participar da Quarentena. Os horários de trabalho foram reajustados, garantindo horários de descanso. A estratégia da Quarentena Solidária contou com o apoio por escrito de mais de 80% dos familiares dos pacientes internados.

Para os funcionários que aderiram à Quarentena Solidária, não foi uma tarefa fácil. O impedimento, mesmo que voluntário, do ir e vir, associado à distância da família de seu ambiente e rotina próprios, preocupações com a família, ansiedade e dificuldade em iniciar o sono foram algumas das queixas apresentadas. O cansaço ao longo dos dias era evidente. Uma rotina de atividades físicas, lúdicas e de relaxamento foi organizada de acordo com as necessidades dos profissionais. Estruturas para videoconferências familiares, rituais religiosos e consultas psicológicas disponibilizadas online. Ocorreram regularmente encontros com dinâmicas e reflexões filosóficas, permitindo espaços de compartilhamento de experiências e construção coletiva de sentido para o trabalho. Foi realizada a capacitação das equipes de saúde e apoio sobre a gestão e prevenção da COVID-19 por meio do ensino presencial e da aprendizagem ativa, mantendo a metodologia usual de educação participativa centrada no indivíduo.

Para garantir o distanciamento necessário mas minimizar o impacto social e psicológico do isolamento social, a equipe promoveu videoconferências entre pacientes e familiares, e visitas através do vidro da recepção, batizado de “Janela dos Encontros”.  Em julho de 2020 iniciamos a flexibilização gradual da Quarentena Solidária. Visitas familiares presenciais monitoradas pela equipe são realizadas com a maior frequência possível e com todas as medidas de precaução contra a COVID-19 preconizadas por órgãos internacionais competentes.

Espelhados nas experiências internacionais e seguindo as recomendações da OMS mantemos nosso plano de contingência com a máxima humanização possível, convictos de que evitamos também as infecções possíveis dos profissionais de saúde e das famílias.

Chegamos ao início de 2021 com muitos de nossos objetivos cumpridos. O principal deles é nenhum caso de COVID-19 entre os pacientes internados, motivo de orgulho. Não podemos negar que este momento pandêmico nos coloca em estado de alerta e, como equipe, estamos trabalhando muito para nunca afrouxar nosso compromisso de cuidar dos pacientes, suas famílias e de nós mesmos. O ano de 2020 mostrou atos de coragem e dedicação que jamais serão esquecidos, como os apresentados durante a Quarentena Solidária. Nem em nossa história nem em nossos corações.

Acolhemos o ano de 2021, comprometidos em reconstruir e nos regenerar desta crise. As primeiras vacinas contra a COVID-19 chegaram ao Hospital Premier na última semana, e parte do nosso corpo clínico já recebeu a primeira dose. Prevenção, proteção e cuidado ainda são as coisas mais importantes que buscamos em 2021.

Com a esperança de que esses momentos difíceis nos farão pessoas melhores, compartilhamos com a comunidade nossa nova rotina, prezando pela saúde dos pacientes e profissionais e com o potencial de estimular um pensamento mais amplo sobre dinâmicas de serviços de saúde, solidariedade e resposta a crises.

Escrito por Amirah Salman, Manuela Salman, Monira Kallas