Do aprendizado à transformação: a experiência de trazer o ELNEC para o Brasil

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De Salzburg à primeira turma brasileira: uma trajetória de aprendizado, tradução e adaptação cultural para fortalecer a educação em cuidados paliativos.

Em janeiro de 2026, tive a oportunidade de participar, em Salzburg, na Áustria, do seminário internacional de formação de educadores do End-of-Life Nursing Education Consortium (ELNEC), uma iniciativa internacional reconhecida por sua contribuição à educação em enfermagem e cuidados paliativos. Naquele encontro, tive a alegria e a responsabilidade de ser a primeira brasileira a participar do programa, ao lado de outros 33 profissionais de 14 países.

Foram cinco dias de aprendizado intenso, compartilhamento de experiências e construção de conexões. Sob a orientação de enfermeiras referência e lideranças internacionais dos cuidados paliativos, como Betty Ferrell, Judith Paice, Catherine Durham, Sarah Lowry, Carrie Cormack e Nicoleta Mitrea, vivenciamos aulas, atividades práticas, discussões e oficinas voltadas à formação de educadores.

Mais do que adquirir conhecimentos, aquela experiência me fez refletir sobre o quanto a educação pode atravessar fronteiras. Mesmo falando diferentes idiomas e trabalhando em sistemas de saúde com realidades distintas, compartilhávamos preocupações semelhantes: como preparar profissionais para cuidar de pessoas com doenças ameaçadoras da vida? Como acolher famílias em momentos de sofrimento? Como garantir que o cuidado seja realizado com competência, dignidade e humanidade?

Foi também uma experiência de pertencimento e reconhecimento. Representar o Brasil naquele espaço significava levar comigo não apenas minha trajetória profissional, mas também os desafios e as potencialidades do desenvolvimento dos cuidados paliativos em nosso país.

Ao final do seminário, ficou ainda mais evidente que aquela experiência não poderia terminar em Salzburg. Era necessário transformar o aprendizado em uma oportunidade para outros profissionais brasileiros.

Da experiência internacional à realidade brasileira

A ELNEC foi desenvolvida nos Estados Unidos em 2000 e, em 2025, celebrou seus 25 anos de trajetória. Ao longo desse período, consolidou-se como um importante programa educacional para profissionais de enfermagem, com conteúdo estruturado em módulos que abordam diferentes dimensões dos cuidados paliativos.

No Brasil, embora os cuidados paliativos tenham avançado significativamente nos últimos anos, ainda existem importantes desafios relacionados à formação dos profissionais de saúde. Muitos profissionais chegam à prática clínica sem oportunidades suficientes de desenvolver competências para o manejo de sintomas, comunicação, abordagem de questões éticas e legais, cuidado nas últimas horas de vida e acolhimento das famílias.

Além disso, a disponibilidade de materiais educacionais em português, contextualizados para a realidade brasileira, é fundamental para ampliar o acesso ao conhecimento.

A partir dessa percepção, iniciei o trabalho de tradução e adaptação do material do ELNEC para o português. O objetivo nunca foi simplesmente traduzir palavras, mas aproximar conceitos, exemplos e discussões da realidade dos profissionais brasileiros.

Esse processo envolve desafios importantes. Alguns conteúdos precisam ser contextualizados considerando as particularidades do sistema de saúde, da legislação, das práticas profissionais e das questões culturais e religiosas presentes no Brasil. Um exemplo é o módulo sobre questões éticas e legais, que exige atenção especial para que as discussões façam sentido dentro do nosso contexto.

A proposta é preservar a essência e a qualidade educacional do ELNEC, reconhecendo que cada país possui suas próprias particularidades e necessidades. Afinal, disseminar conhecimento também significa torná-lo acessível, compreensível e aplicável à realidade de quem aprende.

Esse trabalho representa também uma oportunidade de aproximar o conhecimento produzido internacionalmente das necessidades dos profissionais brasileiros, contribuindo para o fortalecimento da educação em cuidados paliativos em língua portuguesa.

A primeira turma brasileira: transformando conhecimento em prática

Em outubro de 2026, essa iniciativa ganhou uma nova dimensão com a realização da primeira turma do curso ELNEC no Brasil.

A procura superou as expectativas iniciais: foram 58 inscrições em apenas quatro dias. A primeira turma foi composta por 19 profissionais de enfermagem, que participaram de uma semana de atividades educacionais, de segunda a sexta-feira, com quatro horas diárias de formação.

Ao longo dos cinco dias, foram trabalhados oito módulos fundamentais para a prática dos cuidados paliativos:

  • Cuidados paliativos na enfermagem;
  • Questões éticas e legais no Brasil;
  • Avaliação e manejo da dor;
  • Avaliação e manejo de sintomas;
  • Perda e luto;
  • Comunicação;
  • Últimas horas de vida;
  • Considerações culturais e espirituais/religiosas.

A proposta foi estimular não apenas a aquisição de conhecimentos, mas também a reflexão sobre atitudes, valores e responsabilidades dos profissionais diante de pacientes e familiares que vivenciam situações de grande vulnerabilidade.

A experiência despertou um interesse que foi além da primeira turma. Uma segunda edição já está programada para janeiro de 2027, com 22 vagas previstas e uma lista de espera de profissionais interessados em participar. Esse movimento reforça a demanda por oportunidades estruturadas de formação em cuidados paliativos e a importância de ampliar o acesso a iniciativas educacionais dessa natureza.

O que os participantes levam para a prática?

Os formulários de avaliação pré e pós-curso permitiram conhecer as expectativas dos participantes e compreender como avaliaram a experiência.

No questionário inicial, foram registradas 19 respostas. A maioria era composta por enfermeiros (78,9%), enquanto 21,1% eram técnicos de enfermagem.

O tema de maior interesse foi a atuação da enfermagem em cuidados paliativos (47,4%), seguido pelas questões éticas e legais no Brasil (21,1%). As expectativas também evidenciaram o desejo de aprimorar conhecimentos, desenvolver habilidades clínicas e oferecer uma assistência mais segura, individualizada e humanizada.

Na avaliação posterior, com 18 respostas, a experiência recebeu avaliações bastante positivas. A duração do curso obteve média de 9,94 em uma escala de zero a dez, e as médias dos oito módulos variaram entre 9,78 e 10.

Entretanto, talvez os resultados mais significativos tenham aparecido quando os participantes descreveram aquilo que pretendiam levar para sua prática profissional: Empatia, acolhimento e cuidado humanizado foram mencionados por 38,9% dos respondentes. O cuidado integral ao paciente e à família também apareceu em 38,9%, enquanto 27,8% destacaram a importância de compartilhar o conhecimento adquirido com outros profissionais.

Autocuidado, comunicação, escuta, confiança e manejo de sintomas também foram aspectos frequentemente mencionados.

Algumas falas traduzem especialmente bem o impacto da experiência:

“Compreender que os cuidados paliativos vão muito além de apenas controlar sintomas.”

“Refletir sobre o ponto de vista da família e do paciente. Essa inversão de papéis.”

“Buscar o autocuidado. Fortalecer-se para poder cuidar dos outros.”

“Uma visão diferente, mais humana, completamente transformada por essa especialidade tão bonita, importante e necessária.”

“Entender que a dor do outro importa! Saber ouvir, mesmo que seja tudo o que podemos fazer naquele momento.”

Essas manifestações reforçam algo essencial: ensinar cuidados paliativos não significa apenas transmitir conhecimentos técnicos. Significa também criar oportunidades para que os profissionais reconheçam o sofrimento, desenvolvam sensibilidade e compreendam a dimensão humana do cuidado.

Uma iniciativa que está apenas começando

Trazer a ELNEC para o Brasil representa mais do que realizar um curso. É contribuir para a construção de uma cultura de educação permanente em cuidados paliativos, fortalecendo o papel da enfermagem e ampliando as possibilidades de disseminação do conhecimento.

A experiência de Salzburg me ensinou que a educação em cuidados paliativos é uma construção coletiva. Nenhum país possui todas as respostas, e o intercâmbio entre profissionais de diferentes culturas permite reconhecer desafios compartilhados e aprender com diferentes experiências.

Da mesma forma, acredito que o conhecimento não deve ficar restrito a quem teve a oportunidade de participar de uma formação internacional. Ele precisa ser compartilhado, adaptado e multiplicado.

A realização da primeira turma brasileira foi um passo importante nessa direção. A procura pela segunda edição demonstra que existe uma demanda real por formação e que precisamos continuar criando oportunidades para preparar profissionais capazes de oferecer um cuidado competente, ético e compassivo.

O trabalho de tradução e adaptação do material continua, assim como o planejamento de novas turmas e a possibilidade de ampliar o alcance dessa iniciativa.

Se em Salzburg aprendi que os cuidados paliativos constituem uma linguagem compartilhada entre diferentes países, hoje tenho a esperança de contribuir para que essa linguagem também alcance cada vez mais profissionais no Brasil.

Estamos apenas começando.

 

Agradecimentos:

Sou profundamente grata a Betty R. Ferrell, Judith A. Paice, Catherine O. Durham, Sarah Lowry, Carrie L. Cormack e Nicoleta Mitrea pela generosidade, sabedoria e pelas contribuições tão significativas para meu crescimento como enfermeira em cuidados paliativos.

 

Para aqueles que desejam conhecer melhor a trajetória do ELNEC, sua contribuição para a educação internacional em cuidados paliativos e as experiências de profissionais que participaram de sua disseminação em diferentes países, recomendamos as seguintes leituras:

  1. de Camargo JD. Palliative care as a shared language: reflections from an ELNEC seminar in Salzburg. Palliat Support Care. 2026;24:e115:1-2. doi: 10.1017/S1478951526102405.
  2. Paice JA, Malloy P, Mazanec P, Coyne PJ, Virani-Cooksey RM. Dr. Betty Ferrell and the extraordinary pursuit of worldwide palliative nursing education. J Pain Symptom Manage. 2025;69(1):e7-e11. doi: 10.1016/j.jpainsymman.2024.10.008.
  3. Mitrea N, Moşoiu D, Ancuţa C, Malloy P, Rogozea L. The impact of the End-of-Life Nursing Education Consortium International Training Program on the clinical practice of Eastern European nurses working in specialized palliative care services: a Romanian case study. J Hosp Palliat Nurs. 2017;19(5):424-434. doi: 10.1097/NJH.0000000000000367.

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